
Nós, os Vivos: O Filme Baseado na Obra de Ayn Rand
Lançado em 1942 como dois filmes, “Nós, os Vivos” (Noi Vini) e “Adeus Kira” (Addio Kira), são adaptações cinematográficas italianas do livro de Ayn Rand, Nós Que Vivemos (We The Living). O filme marca a estreia do cineasta italiano Goffredo Alessandrini no cenário das adaptações literárias. O filme captura a essência do romance de Rand, ambientado na Rússia pós-revolução, e explora as complexas questões de liberdade individual, amor e o confronto com o totalitarismo. Embora a obra original tenha sido escrita em 1936, sua adaptação para o cinema traz uma visão fresca e profunda sobre as escolhas humanas em um regime opressor. A adaptação, no entanto, não perde o foco no dilema existencial da protagonista Kira Argounova. O longa é uma poderosa reflexão sobre a luta interna entre o desejo de liberdade e as imposições de um sistema autoritário.
O Cenário Histórico: A Rússia Soviética Sob uma Nova Perspectiva
O filme de Alessandrini é ambientado na mesma Rússia pós-revolução que Rand descreve em seu livro. No entanto, a adaptação faz escolhas estéticas e narrativas para aproximar o público contemporâneo de uma história que, embora situada em 1920, possui reflexos de questões sociais ainda atuais. A Rússia de Nós, os Vivos é marcada pela busca de um regime totalitário por controle absoluto sobre seus cidadãos. No entanto, o diretor faz uso de cenas sombrias e cenários austeros, imersos em uma atmosfera opressiva, para simbolizar a repressão do Estado sobre a liberdade individual. O contraste entre a frieza do ambiente e a intensidade das emoções dos personagens cria uma dinâmica visual que coloca o telespectador no centro da luta pela autonomia.
A Visão do Diretor: Alessandrini e a Adaptação da Filosofia de Rand
Goffredo Alessandrini traz ao filme uma sensibilidade única para adaptar Nós, os Vivos de Ayn Rand sem se perder nas nuances filosóficas que permeiam a obra original. Ele é conhecido por suas obras que exploram questões políticas e sociais, e sua abordagem de Nós, os Vivos reflete essa inquietação. Ao contrário de muitos cineastas que se perderiam em discussões ideológicas, Alessandrini foca em criar uma narrativa emocionalmente carregada. Ele mantém o tom crítico e filosófico de Rand, mas sem sobrecarregar a trama com exposições excessivas de teoria. A liberdade individual, um dos principais temas do livro, é abordada de forma sutil, mas poderosa, através das escolhas dos personagens, especialmente a protagonista Kira. Assim, consegue capturar o espírito do romance sem sacrificar a intensidade emocional da história.
Kira Argounova: A Protagonista Conflituosa e Carismática
A personagem central do filme, Kira Argounova, interpretada pela atriz Alida Valli, que consegue transmitir de forma impressionante o conflito interno de sua personagem. Kira é uma jovem idealista que, em um cenário de repressão, busca se afirmar como indivíduo, recusando-se a aceitar o coletivismo imposto pelo regime soviético. A complexidade de Kira é o motor do filme, pois sua jornada não é apenas sobre resistir ao regime, mas sobre se manter fiel a seus próprios valores e desejos, mesmo quando isso a coloca em desacordo com todos ao seu redor. Alida Valli, com sua performance intensa e silenciosa, revela a profundidade da protagonista, que se vê constantemente dividida entre o amor, a lealdade e a luta por sua liberdade pessoal.
A Trilha Sonora e o Som: Criando uma Atmosfera Opressiva
A trilha sonora de Nós, os Vivos é uma das suas grandes qualidades. A música é ao mesmo tempo melancólica e dramática, servindo como um reflexo da tensão crescente que os personagens enfrentam ao longo da trama. Se encaixando perfeitamente na atmosfera sombria do filme, criando uma sensação de urgência e isolamento. As notas de piano e os arranjos de cordas conduzem as emoções de Kira e de seus aliados e antagonistas, ajudando a intensificar o drama. Além disso, o uso do silêncio em várias cenas críticas contribui para a sensação de sufocamento, refletindo a falta de liberdade e a pressão psicológica constante enfrentada pelos personagens. O som é, portanto, um elemento crucial para dar vida à opressão e à luta pela autonomia no filme.
A Estética Visual: Imagens que Transmitem a Repressão e a Liberdade
A fotografia cria uma estética visual que amplifica os sentimentos de claustrofobia e resistência. O filme, dominado por tons escuros, com interiores sufocantes e cenários apertados, representam a opressão do regime. No entanto, à medida que os personagens buscam a liberdade, a luz começa a penetrar em alguns momentos. Isso sugere a luta contínua por autonomia e os pequenos momentos de respiro que Kira e seus aliados encontram ao longo de sua jornada. A iluminação, utilizada de maneira inteligente para refletir o estado emocional dos personagens, contrastando a frieza do sistema com os momentos de clareza e força de vontade dos protagonistas. A estética visual de Nós, os Vivos tem um grande poder narrativo, e a cinematografia constrói uma história dentro da história, evidenciando as tensões internas e externas enfrentadas pelos personagens.
Elenco
- Alida Valli como Kira Argounova
- Rossano Brazzi como Leo Kovalensky
- Fosco Giachetti como Andrei Taganov
- Giovanni Grasso como Tishenko
- Emilio Cigoli como Pavel Syerov
- Cesarina Gheraldi como camarada Sonia
- Mario Pisu como Victor Dunaev
- Guglielmo Sinaz como Morozov
- Gero Zambuto como Alexei Argounov
- Annibale Betrone como Vassili Dunaev
- Elvira Betrone como Maria Petrovna Dunaev
- Sylvia Manto como Marisha
- Claudia Marti como Lydia Argounova
- Evelina Paoli como Galina Petrovna Argounova
- Gina Sammarco como Tonia
- Lamberto Picasso como Capitão da GPU
- Sennuccio Benelli como Sasha
- Gioia Collei como Ada Dunaev
- Bianca Doria como Irina Dunaev
Os Relacionamentos: O Amor em Tempos de Opressão
Em Nós, os Vivos, o amor reflete a luta pela liberdade e individualidade. Kira se vê dividida entre Leo Kovalensky (Rossano Brazzi), um revolucionário que busca mudar o sistema, e Andrei Taganov (Fosco Giachetti), membro do partido que representa o conformismo. O dilema de Kira, mostrado de forma que suas escolhas amorosas se entrelaçam com suas escolhas filosóficas. A relação com Leo simboliza a busca pela liberdade, enquanto com Andrei representa a aceitação do regime. Esses relacionamentos profundos ampliam a compreensão de como o amor é influenciado pelas circunstâncias políticas e sociais.

Recepção Crítica: A Crítica ao Totalitarismo e o Reconhecimento
Nós, os Vivos, bem recebido pela crítica, principalmente pela sua capacidade de adaptar com fidelidade os dilemas filosóficos de Ayn Rand, sem perder a intensidade emocional que torna o filme acessível ao público contemporâneo. A performance de Alida Valli como Kira foi amplamente elogiada. A direção de Alessandrini também foi destacada por conseguir balancear de maneira eficaz a narrativa íntima com as grandes questões ideológicas que o livro de Rand propõe. A obra também recebeu várias indicações a prêmios de cinema, incluindo premiações no Festival de Cinema de Veneza.. Destacada pela crítica pelo uso inovador da estética e pela sua abordagem sensível ao material original.
Por Que Assistir a Nós, os Vivos?
Sendo você fã de Ayn Rand ou se interessa por histórias que abordam questões existenciais e filosóficas profundas, Nós, os Vivos sem dúvida uma obra que não pode ser ignorada. A adaptação de Alessandrini oferece uma nova camada ao romance de Rand, apresentando uma visão rica e sensível sobre a luta pela liberdade individual em tempos de repressão. Com uma direção refinada, atuações excepcionais e uma estética visual marcante, o filme transmite a mensagem de Rand sobre a importância da autonomia de forma envolvente e acessível. A história de Kira Argounova, sua busca por autenticidade e a escolha entre o amor e a liberdade pessoal ressoam de maneira poderosa e universal, tornando este filme uma experiência cinematográfica imperdível.

